Café Audiofilia


domingo, 28 de outubro de 2007

O Linguarudo.




Achamos por bem nunca falar mal de ninguém aqui no Café Audiofilia, já que temos mais o que fazer, do que perder tempo com insignificâncias.

Preferimos sempre destilar nosso veneno maldoso pra cima de um equipamento qualquer e na maior crueldade dar cabo de aparelhos, que coitados nem sequer podem se defender. Melhor ainda é com ares de pai da matéria malhar determinado cabo, ou mesmo detonar implacavelmente acessórios metidos a besta.

Muito... Mas muito mais gratificante, e ainda faz bem ao fígado.

A partir de agora pretendo inaugurar uma série de análises e testes nos equipamentos que passam pelo meu laboratório. Não que eu já não tenha analisado aparelhos anteriormente, mas quero fazer disso uma prática, minha pequena contribuição para preencher a lacuna existente nas publicações especializadas, no que se refere à falta de sustância nas informações técnicas, coisa de que tanto reclamo.

Sou contra a mania absurda - abraçada pela quase totalidade das publicações - de isolar o objeto de análise no vácuo e a partir daí tecer os mais estapafúrdios comentários nitidamente comprometidos.

Nem sei se ele o fez, mas pra dar uma de metido vou creditar ao gênio linguarudo Einstein, a observação de que tudo é relativo e tudo tem relação.

Equipamento de áudio não pode ser analisado de forma isolada, sem que seja levada em conta a relação dele para com o mercado e o consumidor. Aparelhos têm história e finalidade, muitas vezes acompanhadas de extenso pedigree, assim como também conferem posição e revelam a intenção de quem os compra.

Sem pretender transformar equipamentos em réus, vou inseri-los no mais amplo e abrangente contexto, buscando não desrespeitar a inteligência do leitor e situando convenientemente todos os objetos de teste que estiverem sob nossa análise.

Aparelhos de grife consagrada devem apresentar qualidade à altura do que pretendem significar e montagens artesanais caseiras serão quase sempre benevolamente tratadas, quando não for o caso de também atirá-las aos leões. Quem sobreviver verá.

Para conduzir as avaliações contarei com meus colaboradores de costume, mas também conclamo a interatividade de todos que saboreiam o Café Audiofilia, a sorver e participar desse prazeroso afazer.

Os equipamentos serão tecnicamente esmiuçados em nosso laboratório, que conta com ferramental e instrumentação apropriada, que vai desde valvulados, como os osciloscópios da Leader e Heatkit, ou os multímetros e voltímetros Simpson, até os sólidos duplos traços da Tektronix, mais recentemente incrementados com os digitais da ProteK, além da festa de VU’s e bargraphs, geradores de sinais e analisadores, que irão sendo apresentados conforme a realização das medições.

As audições se darão em sala de escuta que não conta com nenhum recurso especial ou mirabolante, reproduzindo de maneira fiel e cruel os ambientes em que normalmente os aparelhos são instalados e obrigados a trabalhar.

Na minha adolescência floresceu o gosto pela eletrônica, que acabou encaminhando toda a minha vida, o passo seguinte foi a paixão pelo áudio, que se fundamentou nas páginas das publicações estrangeiras especializadas.

Por mais de quarenta anos assisti as revista de áudio perderem gradativamente seu caráter técnico e serem paulatinamente invadidas por um mercantilismo degradante, que leva os leitores à bestificação, seja pela falta de qualidade na informação, seja pela tendenciosidade, ou mesmo pela incompetência técnica de quem escreve, com conseqüências diretas na capacidade do questionamento por parte dos leitores.

Encontrei há cerca de dez anos o magazine japonês MJ (Music to Jinken), que tem um perfil inusitado e diferente de tudo aquilo a que eu estava acostumado, e que muito me influenciou e ajudou a ver com outros olhos a babaquice que outras publicações tentam nos empurrar.

Na MJ, simplesmente não existem análises poéticas contemplativas a respeito de nuances sonoras e, se por um lado a revista aborda equipamentos comerciais e o mercado de áudio, por outro lado se atém a fazer revelações técnicas incluindo um profundo mergulho na eletrônica.

Não existe em nenhuma língua termos específicos que revelem as mais variadas e diferentes nuancem sonoras relacionadas ao mundo do áudio, daí que se aproveitar de licença poética para jacular com intenções comerciais as maravilhas sonoras de determinado produto, além de encher nosso saco com o mais puro Nada, e com uma relativização tão flexível que faria Einstein corar, em nada contribui para o enriquecimento da lingüística.

E chega de papo furado, pois conforme os equipamentos forem sendo analisados teremos oportunidade para colocar mais informações a respeito da conduta geral que norteará nossos testes, caso porventura haja uma conduta geral.

Um grande abraço,

Rui Fernando Costa.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Hasta La Vista, Baby! ou Foi, por medo de avião...

A Senhora Yoko Ono, viúva de estridentes gemidos de John Lennon, lá na época de setenta já chamava a atenção para a hipocrisia da sociedade, que costuma taxar como baixa pornografia o som dos amantes durante o ato sexual, enquanto nem se abala com a violenta poluição sonora provocada por um jato levantando vôo.

Oh! Que trágico destino!

Preferir-se o assassino,

Ao amante mais leal!

É que bandidos são úteis

E nós, os amantes, fúteis.

Vulgaridade do mal.

Belchior-Francisco Casaverde.

De há muito parei de ler sobre informática, pois me nego terminantemente a ser novamente alfabetizado em outra língua alienígena repleta de estrangeirismos, através de artigos povoados por palavras que nem sequer existem nos dicionários da língua portuguesa, em textos que além de burros são mal intencionados, ao querer, por exemplo, atribuir ao “i” o fonético “ai”, através da insistência na palavra “site”, e subjugando um mar de gente que mal sabe ler e escrever em português, a grunhir num pobre inglês. Fico putíssimo com essa imbecilidade total de colonizado aculturado, pois bastava colocar um “e” no final de Internet, para que o termo internete se tornasse nacionalizado, mas insistem os articulistas antijacobinos, analfabetos de pai e mãe, em ficarem condicionados à idiotice de se acharem cultos, por malversarem a língua pátria.

Minha mulher diz que sou um chato, na certa que sou, mas já notaram como se usa a palavra “top”, que também não consta dos dicionários; é “top” para lá e “top” para cá, “top” onde não tem nada a ver, mas na maioria das vezes onde perfeitamente caberia a palavra topo.

Agora a palavra da moda é foco, com certeza oriunda do epicentro “fashion” da falta de instrução e cultura.

O cara acha que está sendo bacana utilizando esse tipo de vocabulário “up to date”, sempre na moda entre os empreendedores da aculturação, mas na verdade está sendo tomado por mero imbecil, quando ouvido por quem realmente sabe a língua que fala.

Por isso tanta gente se acha com tudo e não sabe porquê não vai pra frente.

Top...Top...Top.

“Vamos comigo no top (toque?) de cinco segundos”.

Hoje de manhã abri pequena concessão, pela imperiosa obrigação de ficar o mínimo de bem informado e fui ler sobre o lançamento do novo Windows Vista, que para desespero dos pusilânimes carrega o título Vista, em português.

A certa altura comentava o escrevinhador do insípido Caderno de Informática da Folha de São Paulo, sobre a segurança do sistema operacional Vista, no que tange ao uso de jogos, que podem ser monitorados quanto ao conteúdo de sexo e drogas.

Nada falava sobre o conteúdo violento que, convenhamos, os jogos eletrônicos são as próprias encarnações da violência e até concordo que censurá-los quanto a isso, seria a mesma coisa que conclamar o fim do barato de jogar ou tal como proclamar a extinção dos jogos.

A violência está em toda a parte, isso qualquer um sabe, mas lendo a Folha, no banheiro, o lugar mais adequado para esse tipo de leitura, o profundo ruído de fundo e o farfalhar das folhas do jornal me fizeram lembrar dos guinchos da Yoko Ono e do violento ‘slam’ do avião a jato, a infestar de poluição sonora o ar que ouvimos. E o ar está carregado! E o Sindacta está sem data para voltar a funcionar a contento...

Céu de brigadeiro hoje é Boeing 747, em parafuso se desfazendo no ar para logo em seguida no chão se espatifar. Imagina o som do “crash”?

Acho que em decorrência da baixa renda, que achatou a cabeça e esvaziou o bolso dos brasileiros, as cidades se transformaram numa imensa periferia, com latidos de cachorros largados sozinhos ecoando pelos corredores dos prédios, ou nos quintais e nas ruas a morder e a nos alijar do salutar silêncio, para deixar-nos babando de raiva. - Por vezes queria ser eu como Cruela Devile!

Pior ainda é o ruído de fundo provocado pelo trânsito, intensificado com o caos do transporte público e a concentração de renda que leva ao egoísmo do transporte solitário, fatores que acabam por introduzir cada vez mais carros no tráfego congestionado, rompido apenas pelo tsunami de motos, que vêm em constantes e enormes ondas, a buzinar e a cortar por entre as fileiras dos carros parados, até que algum motoqueiro se estatele morto no chão, que ninguém mais liga, em meio à corriqueira violência do trânsito.

Já repararam que o aumento do número de motos está diretamente relacionado com o empobrecimento dos países, quanto mais baixa a categoria do país, maior o número de motos, dessas pequenas de baixa cilindrada e até as chamadas “cabritas” montadas pelo próprio usuário.

Não se enganem, no entanto, achando que sou elitista, muito pelo contrário, defendo a liberdade dos feirantes gritarem suas ofertas e dos camelôs trabalharem malhando suas mercadorias, de nada adianta o conceito burguês de esconder o lixo debaixo do tapete, a pobreza econômica faz parte do Brasil real onde o povo precisa sobreviver e os incomodados, se puderem, que se mudem para a ilha da fantasia do congresso, para viver ao lado de Ali Babá.

O Windows Vista foi apresentado pelos camelôs da região da Santa Efigênia, antes mesmo de seu lançamento oficial nas lojas, ao preço de dez reais nas bancas dos ambulantes, contra os mais de mil reais que custa nos revendedores. Minha teoria é simplista; a ganância da própria indústria é que cria a pirataria.

Será que alguma gravadora, alguma vez já pagou direitos autorais aos diversos artistas que compõem uma gravação do tipo Os Melhores de Qualquer Coisa?

Pirataria oficial?

O Bill Gates deseja se aposentar após a consolidação do sistema operacional Windows Vista, projetado para faturar mais de vinte bilhões de dólares. Pra quê? Para se manter em primeiro lugar do ranking do homem mais rico do mundo, ganhando o prêmio maior da atrocidade capitalista de concentrar renda.

A Megasena premiou o mendigo Sena com quarenta e dois milhões de reais, pagos com a própria vida. Agora a viúva milionária está dormindo no colchonete.

Ora, isso é prêmio para Genibaldo. Por que não cem mil reais para quatrocentos e vinte mendigos, ou mesmo mil reais para quarenta e dois mil mendigos, quem sabe um salário mínimo por mês para os milhões de famílias que vivem no mais puro - se é que existe pureza no - estado de miséria.

“Ei! Você aí, me dá um dinheiro aí”.

Brasil; país de pedintes... Governado por ladrões.

A falta de escola e a completa falta de perspectiva gerada pelo modelo econômico que aí está, são as causas principais da poluição sonora, que se manifesta das mais diversas e variadas formas, desde o espocar terrificante das balas perdidas no tiroteio, que passam raspando e zunindo em nossos ouvidos e sempre dão de encontro com inocentes, numa versão moderna de poluição sonora praticada pelo crime organizado e divulgada em cadeia patrocinada pelo jornal nacional; ou mesmo no zumbido angustiante do mosquito da dengue atormentando nossos ouvidos em meio ao definhar da saúde pública anunciada no “zumbizar” do pronunciamento inocente das(os) sanguessugas, e tudo isto sem não antes passar pela perturbação do vizinho que mora ao lado, com seu som a mil nas coxas da Joelma penetrando o colapso.

Desde a ondulante pélvis do Elvis, até o balouçar da desnuda bunda da madrinha da escola, o palco sonoro da poluição que infesta nosso ar rarefeito de qualidade atravessa qualquer blindagem anecóica, entra pelos ouvidos e danifica o cérebro.

A poluição sonora tem fundo social e tais os demais males do nosso subdesenvolvimento, ela também pode ser explicada pela falta de escola, educação e cultura, pela falta de oportunidades e pelas condições de miséria em que vive o nosso povo. Que tal depois do Fome Zero o ruído zero? Porque já estamos de saco cheio de tanto som zero.

O pesado sistema operacional Windows Vista, que particularmente me parece um furo n’água, vai continuar vendendo aos borbotões, como aconteceu no lançamento oficial, em que a Fenac vendeu quase que imediatamente todo o estoque e o que acabou primeiro foi a versão mais cara.

A rapeize compra apenas pra ficar na moda, como se fosse uma camisa nova.

Chega em casa e não roda, porquê superpesado requer mais de um mega de memória “cash”.

Vi na TV um cara do setor têxtil reclamar que com este atual baixo valor do dólar, não dá para competir com o produto chinês. E se o dólar passasse a valer dez reais, por acaso daria para competir com o produto chinês?

Um país de quase cento e sessenta milhões de habitantes, cujo mercado interno não passa de seis milhões de abastados, que podem comprar o que bem entenderem, venha de onde quer que venha e não importe o quanto custe, sinceramente não é mercado nenhum, antes sim é uma grande piada.

Tal o cão a ladrar, poluição sonora é ouvir o Lula a discursar num dialeto estranho e tacanho, que me faz recordar do negão pirata do Asterix, com inspiração forjada nas forçadas dublagens nacionais do crioulo doido.

Desde a poluição sangrenta do Golpe, com gemidos e gritos sufocados em surdina, até a imposição do neoliberalismo, para nos manter sob a sola do sapato da globarbarização, a droga sonora agride os ouvidos, feito o ‘slep’ do chinelo de dedo, feito o ‘slam’ do avião a jato e bate no coração perturbando o cérebro com o ronco do estomago.

Viva o som dos humanos se amando!

Rui Fernando Costa.